Lucimar Moreira Bueno(Lucia) - www.lucimarbueno.blogspot.com

quarta-feira, 2 de março de 2011

Filhos do desejo – Por Raymundo Lima

É o ‘desejo’, não a ‘necessidade’ que domina as crianças e adolescentes. A psicanálise distingue necessidade (ordem biológica) e desejo (ordem psíquica e simbólica). Temos necessidade de comida, água, abrigo, até de carinho. Mas desejamos coisas pelo seu valor simbólico: comer “pizza”, beber “refrigerante x”, ganhar um presente, viajar. Podemos viajar por necessidade, e também por desejo para curtir férias, conhecer um lugar, enfim.

O senso comum confunde necessidade com desejo, sobrevivência com estilo, ter com ser. Podemos até ter necessidade de um tênis, roupa, comida, mas influenciados pela publicidade deixamos ser forjado em nós o desejo de uma determinada marca, para mostrar aos colegas, entrando na onda ao usar uma roupa de griffe visando impressionar o grupo social a que pertencemos.

A cultura contemporânea forja em todos nós a sensação de falta de algo, artificial; gerando desejos terríveis (compulsões) que nos obrigam a comprar mais e mais sapatos, colecionar objetos, comer “mais” por gula e sem necessidade, sempre para tapar nosso vazio angustiante. Cada pessoa tem um tamanho de “eu devo” ter estas coisas, porque só possuindo se poderia ser feliz. É um enganoso caminho da felicidade.

O desejo sempre ‘alucina’ algo que promete felicidade. Na verdade, o desejo é a representação de algo inconsciente que jamais será preenchido por uma coisa ou objeto real. Noutros termos, “O desejo é aquilo que persegue um objeto, e quando esse objeto é atingido, ele perde sua significação”, diz o psicanalista Ivan Capelatto (YouTube: Café Filosófico). Lacan diz que o desejo é desejo de desejo, logo, jamais ele pode ser preenchido.

Crianças são reféns dos desejos. Cabe aos pais dar uma medida ao desejo delas. Quando elas aprendem a lidar com as frustrações constrói-se um adulto melhor. Um filósofo antigo sentenciou: É próprio da criança desejar desmedidamente, é próprio dos adultos suportar as frustrações. Porque a realidade tende ser frustrante frente aos desejos alucinados e sem fim.

Acontece que hoje os pais estão se tornando reféns dos filhos, pressionados pela publicidade e pelos coleguinhas. Estamos criando uma geração mimada, medrosa, mandona, sem-vergonha, mal-educada, e fechada no ‘mundinho’ da internet e da televisão. Estamos criando uma geração fragilizada, assujeitada ao desejo poderoso dos outros (publicidade, consumismo). É uma geração resistente para ser adulto.

Porque pessoas submetidas apenas aos desejos são infantilizadas e chatas? Os pais, hoje, não sabem dizer não aos filhos. A mãe pós-moderna oferece aos filhos um mundo só de conforto, bens materiais, estética no vestir, guloseimas, enfim, um mundo belo, gordo e sem frustrações.

Alheios a necessidade e possibilidade dos pais, os “Filhos do desejo” são representados nos programas de TV: Super Nany ou Super Babá. Pais impotentes e perdidos de classe média encaminham os “monstrinhos” para a psicóloga ou psicopedagoga, para consertar suas atitudes pré-delinquentes.

Na escola, eles não aceitam notas baixas, brigam pelos seus “direitos” de obter notas altas, xingam e até agridem os professores. Provavelmente, no futuro, eles resistirão ao estudo sistemático na universidade, passarão por cima da hierarquia no trabalho e não suportarão as críticas dos colegas.

Chamados de geração Y, os jovens atuais odeiam o campo e amam a cidade. Seu desejo é ficar grudado ao computador horas a fio; sentem fascínio pelas telas (computador, televisão, celular), são viciados em comida industrializada, divertimentos e relações descartáveis ou líquidas. Filhos do desejo não têm energia para estudar, para ir à luta na vida e conquistar sua autonomia. Excetos os nerds e cdfs, os filhos do desejo, no fundo, não sabem procurar “qual é o seu desejo”? Não sabemos qual é o seu futuro.

Raymundo Lima é Psicólogo e Doutor em Educação

Artigo publicado na Revista Maringá Missão do mês de março de 2011