Lucimar Moreira Bueno(Lucia) - www.lucimarbueno.blogspot.com

quinta-feira, 16 de abril de 2009

ACERCA DA CONTROVÉRSIA À VOLTA DA POSIÇÃO DO PAPA BENTOXVI SOBRE O PRESERVATIVO

Conféence Episcopale Régionale
de l’Afrique de l’Ouest Francophone
C. E. R. A. O.
SECRETARIAT GENERAL
28 B. P. 470
ABIDJAN 28 – Côte d’Ivoire

ACERCA DA CONTROVÉRSIA À VOLTA DA POSIÇÃO DO PAPA BENTOXVI SOBRE O PRESERVATIVO

OS BISPOS DE CERAO DECLARAM

Espanto perante uma manipulação ultrajante e planificada

Ficámos surpreendidos e espantados sobre a maneira como uma frase do Santo Padre foi totalmente retirada do seu contexto próximo e longínquo para se transformar no motivo recorrente de todas as emissões da RFI e de outros médias sobre a primeira viagem apostólica do Santo Padre, Papa Bento XVI, à África. O cúmulo é esta ocultação sistemática das outras ideias da entrevista e a minimização de tudo aquilo que o Santo Padre se esforçou por comunicar como esperança para África, tanto nos Camarões como em Angola. A este respeito precisamente, não se deveria reconhecer que é a África e à sua missão evangelizadora que os autores da sombra se atiram?

Nós, Bispos da Conferencia Episcopal Regional da África Ocidental (CERAO), tomamos consciência da gravidade do acontecimento e queremos declarar a todos o que se segue:

Demolir a moral é crime contra a humanidade

Não se chegará a acabar com a SIDA destruindo os apoios espirituais e morais dos homens, sobretudo dos adolescentes e dos jovens, fragilizando-os e fazendo deles pacotes de prazeres sexuais sem os reguladores previstos pelo Criador. É um crime contra a humanidade o facto de privar a criança, o adolescente e o jovem do treino ao domínio do espírito sobre o corpo e suas pulsões que se chama educação sexual. Neste sentido, os slogans publicitários e a distribuição de preservativos poderiam não ser mais que uma irresponsabilidade e crime contra a humanidade.

Propósitos desrespeitosos, injuriosos e sacrílegos

Para nós, Africanos, o Papa é o pai da Grande Família que é a Igreja e, a este título, devemos-lhe respeito e afeição. É sacrilégio para nós, do simples ponto de vista de nossa cultura africana tradicional, para ainda não falar da fé, que rapazes e raparigas da Igreja que se pretendem católicos se dirijam ao Papa com vulgaridade, arrogância e injurias, como certos jornalistas de órgãos franceses e certas personalidades francesas, espanholas, europeias, se permitiram de o fazer. Lamentamos e condenamos estes propósitos desrespeitosos e injuriosos.

O atentado pós-moderno contra a verdade e suas consequências violentas sobre as relações humanas

Mas nós não somos de uma cultura senão a título da verdade mais profunda de nossa humanidade. E a humanidade, que é comum a todos nós, é única: ela concretiza-se num certo número de direitos e deveres, inseparáveis da dignidade de toda a pessoa humana. É absolutamente intolerável que um pequeno grupo de comunicadores – às vezes mesmo africanos assinando à margem sem dificuldade sobre a riqueza “suja” daqueles que despojaram os seus povos – se arroguem o direito de deformar a verdade para se apresentarem como benfeitores responsáveis diante da condição dramática dos nossos irmãos e irmãs portadores do VIH SIDA, e, pelo contrario, transformarem o Santo Padre num personagem “irresponsável” e desprovido de humanidade, e deste modo, poderem injuriar e tentar amotinar contra ele uma multidão barulhenta de indivíduos, que se julgam com direito a poder falar daquilo que não tiveram o cuidado de conhecer com precisão. Esquecem-se que, procedendo assim, eles se desqualificam profissionalmente, porque existe uma diferença essencial entre criar sensacionalismo escandaloso e informar. Lamentamos e condenamos o atentado contra a verdade, que é o pecado de nosso mundo pós-moderno, e do qual resultam as graves feridas que sofre cada vez mais a Santa Igreja, Nossa Mãe. Que mundo é este em que não se arranja tempo para escutar o outro, para o escutar até ao fim e onde se lhe obriga a dizer o que se quer que ele diga? A sabedoria africana e a Sabedoria Bíblica, ambas centradas sobre a Escuta, têm uma outra visão do mundo a propor.

Profunda união de pensamento e de coração entre Bento XVI e a África

Nós, Bispos africanos, agradecemos do fundo do coração ao Santo Padre, que tem tantas afinidades connosco, pelo facto de nossa comunhão de pensamento sobre a Igreja e do nosso empenho comum em favor dos pobres, dos feridos da vida e dos pequenos. Quem ignora que os títulos: Igreja, Casa (Família) e povo de Deus; Igreja, Fraternidade Cristã, Igreja-Comunhão são dele? Ele acreditou nisso e para isso trabalhou desde há muito tempo como jovem teólogo e mais recentemente como Cardeal Prefeito de Dicastério; também nós acreditamos nisso e estamos prontos a agir para edificar em África a Igreja Comunhão como Família de Deus e fraternidade de Cristo. Ele veio até nós para nos confirmar nesta fé. Nós lhe agradecemos por isso mesmo.

Igreja de África, Uma Igreja portadora de Esperança

Nós lhe estamos também reconhecidos por toda a mensagem de esperança que ele nos veios transmitir, nos Camarões e em Angola. Ele veio nos encorajar a viver unidos, reconciliados na Justiça e na Paz, para que a Igreja de África seja ela mesma uma chama ardente de esperança para a vida de todo o continente. E nós lhe agradecemos por ter reproposto a todos, com matiz, clareza e penetração, o ensino comum da Igreja, em matéria de pastoral dos doentes da Sida.

Humanização da sexualidade e dom de si mesmo aos doentes da Sida

Ele nos encoraja a todos a viver e a promover a humanização da sexualidade e o dom da sua própria humanidade para estar com e socorrer em verdade os irmãos e irmãs doentes da Sida, como a autêntica atitude responsável dos católicos face aos doentes da Sida e de todos aqueles que amam verdadeiramente os africanos atingidos por este mal. Acolhemos sua mensagem que é também a nossa própria posição. E declaramos todos com ele: “... não se pode ultrapassar este problema da Sida unicamente com slogans publicitários. Se aí não metermos a alma, se não ajudarmos os africanos, não se pode resolver este flagelo com a distribuição de preservativos: pelo contrário, o risco é de aumentar o problema”. Tais são as palavras de Bento XVI que uma matracagem mediática se esforçou por deformar. Mas em vão.

Responsabilidade dos média

Dizer menos, é menosprezar o Africano e testemunhar zelo em matar aquilo que há de autenticamente humano no homem negro, onde por exemplo todas as tradições valorizam muito a virgindade constatada no casamento. Lamentamos e condenamos esta pretensa responsabilidade em relação ao homem negro, que teria apenas uma solução mecânica face a um problema tão vital como a sexualidade para todo o home.m e, portanto também para o africano igualmente. A responsabilidade dos média é grande; não devem declinar, sob pena de fazer diminuir qualquer coisa do humano fundamental.

Não ao pensamento por procuração

Dizemos, finalmente, que os africanos têm a capacidade de pensar por si mesmos, tanto os seus próprios problemas como os de toda humanidade. Lamentamos e denunciamos o crime, vindo do fundo das idades, onde se tratavam os nossos irmãos e nossas irmãs como mercadorias e como “bens moveis” (O Código Negro, Art.44), e que actualmente consiste em se obstinar a pensar por nós, a falar por nós, a fazer em nosso lugar sem dúvida porque não se acredita que o podemos fazer por nós mesmos. Talvez se diga que é aos Comunicadores Africanos que habilmente se confia a indecente tarefa de jogar aos palhaços para divertir o mundo e tornar a África duplamente deplorável: não apenas materialmente mas também moralmente. Mas não existem apenas estes Africanos ignorantes das estruturas antropológicas mais sólidas e dos valores morais mais seguros da África que estejam directamente em condições de falar em nome do continente.

Nós, Bispos da Igreja Católica do espaço CERAO, exigimos que se pare de pensar por nós, de obrigar a África da rua a falar em nome da África e de distrair a galeria em detrimento dos nossos povos. Exigimos que para falar da África se respeitem os valores essenciais, sem os quais o homem não é mais homem, e que estão sintetizados na dignidade de cada homem, criado a imagem de Deus. Sim, em continuação do Concílio Vaticano II, reafirmamos que ”sem o Criador, a criatura desaparece simplesmente”. Agradecemos ao Santo Padre por ter feito do Deus do Amor e da fé nele a prioridade das prioridades para o nosso tempo. É perfeitamente ilusório que possa haver uma outra prioridade, que criou a situação paradoxal e violenta, onde se pretende ser responsável de nós, metendo no saco tudo aquilo que temos de mais vital: a nossa relação de fé, de esperança e de amor com Deus vivo, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, e nossa vida moral.

Abidjan, 27 de Março de 2009

Théodore Adrien Cardinal SARR
Presidente da CERAO

Abbé Barthelemy ADOUKONOU
Secretário Geral da CERAO